Existe uma capacidade mágica chamada
LI-DE-RAN-ÇA
Trabalhar é uma bênção, e não só para o bolso, mas principalmente para a mente. Brincamos com o tema, fazemos piadas, mas o trabalho não mata, pelo contrário, nos faz sentir vivos. Só que isso depende de uma série de coisas importantes, entre elas destaco: pessoas.
Primeiro que não somos máquinas, somos seres humanos, universos particulares cheios de detalhezinhos, necessidades, anseios, e também uma incrível capacidade criativa. Não se pode tratar uma pessoa como se ela fosse programável e apática, muito menos designá-la a funções estáticas, automáticas, como se ela fosse um robô que simplesmente obedece a comandos e repete movimentos como se aquilo lhe fosse natural.
O mundo está passando por muitas mudanças e é nas relações de trabalho que sentimos os principais dramas, afinal, a busca pela realização profissional é um dos grandes fatores que nos afetam diretamente. Será que as empresas estão conscientes da responsabilidade que têm ao eleger as pessoas que dirigem suas equipes? Será que estão levando em consideração a LIDERANÇA, mais importante característica para a ocupação de um cargo de chefia? Pois é o papel desse cara aí que influi diretamente nos resultados (bons ou ruins) de uma empresa, sejam grandes ou pequenas.
Uma notícia assustadora
Li ontem no jornal uma notícia que escancara a dimensão das relações humanas no âmbito profissisonal.
Trata-se do pedido de demissão feito pelo vice-presidente da France Telecom, Louis-Pierre Wenes, nesta segunda-feira (05/10). O pedido veio após uma semana do suicídio de um funcionário, o 24º dentro da empresa desde fevereiro de 2008.
O diretor-executivo da France Telecom, Didier Lombard, também vem sofrendo pressão dos sindicatos para renunciar ao cargo (por que será?), mas disse que não tem essa intenção. Ele prometeu um programa de troca compulsória de gerentes.
Veja bem: são 24 suicídios de funcionários de uma mesma empresa em menos de dois anos!
O último suicida deixou um bilhete culpando a “atmosfera” de seu trabalho, mas antes disso já havia se queixado com um colega sobre a insatisfação com a função que exercia. Detalhe: os 24 suicidas foram transferidos de função recentemente e estavam sendo cobrados por metas.
É loucura imaginar que alguém tenha coragem de atentar contra si mesmo, ainda mais por causa do trabalho. Mas 24, e em um período tão curto de tempo, deixa claro que há algo errado aí. Além do mais, pessoas muito envolvidas com a profissão, que descarregam nela toda a sua motivação de viver, sabem muito bem o quanto lhes custa ser mal gerenciado. Nos envolvemos de corpo e alma no trabalho por uma série de razões, mas a maior delas é o amor pelo que fazemos.
Notícias como essa aí de cima indicam a urgência da reestruturação do ambiente corporativo, adaptando-o à realidade humana e ao momento que estamos vivendo: a Era do Conhecimento. Não se trata mais empregados como números e máquinas, as mudanças demonstram que o sucesso de uma empresa e de todo um país depende de como estão sendo tratadas as pessoas envolvidas nesse processo. Por isso a LIDERANÇA passou a ser uma capacidade mágica e transformadora para toda a sociedade.
Adeus Era Industrial. Bem-vinda Era do Conhecimento.
Durante os dois séculos em que a Era Industrial predominou nas relações do trabalho (1750 – 1950), os homens eram tratados como se fossem máquinas, tendo de manter sufocadas suas infinitas capacidades intelectuais e seus sentimentos. Esse modelo priorizava a eficiência, ou seja, o ato de fazer o maior número de coisas no menor tempo. Isso levou o ser humano a conhecer uma série de doenças físicas e psíquicas - que o atormentam até hoje -, frutos das frustrações do trabalho e da profissão.
Depois da Segunda Guerra Mundial, entramos para o período Pós-Industrial, também conhecido como Era da Informação e do Conhecimento. A partir de então, nos deparamos com grandes mudanças, como o aumento da comunicação entre os povos, a difusão de novas tecnologias e de nova base econômica. A produção agrícola e industrial deixou de ser a base da sociedade, dando lugar à produção de informação, serviços, símbolos e estética.
Com todas essas mudanças, o comportamento humano, e consequentemente o corporativo, ganhou novos formatos e necessidades. O que antes era baseado na força e na pressão, agora precisa ser reformulado para atender aspectos humanos, pessoais, afinal, disso depende a força principal de trabalho.
Foi, na verdade, um caminho inverso que fizemos. Com a Revolução Industrial, o mecanicismo tomou conta das relações profissionais e até interpessoais – quanto mais frio e direto o relacionamento, melhor; hoje, de volta pra casa, a tendência é humanizar cada vez mais. E não poderia ser diferente, afinal, como registrei lá em cima, estamos lidando com seres humanos, adaptáveis, porém, nada programáveis. Nada mais natural do que ceder a imprescindíveis necessidades.
“A essência desta era é a liberação da linha criativa de cada trabalhador, justamente o oposto do que ocorria no período industrial, quando o controle era a tônica das empresas”, disse com perfeição Stephen Covey, um dos maiores especialistas internacionais em Gestão do Desenvolvimento Humano durante a abertura do 1º Fórum Mundial de Alta Performance, realizado no Teatro Alfa, em São Paulo, no ano de 2004 (HSM Online).
Na sociedade Pós-Industrial, na qual o trabalho físico foi substituído por máquinas, e o mental pelos computadores, o homem necessita impor-se naquilo em que é insubstituível: capacidade de criar, idealizar e solucionar.
“A sociedade pós-industrial se diferencia muito da anterior e isso se percebe claramente no setor de serviços, que absorve hoje cerca de 60% da mão-de-obra total, mais que a indústria e a agricultura juntas, pois o trabalho intelectual é muito mais frequente que o manual, e a criatividade, mais importante que a simples execução de tarefas. Antes era a padronização das mercadorias, a especialização do trabalho; agora o que conta é a qualidade da vida, a intelectualização e a desestruturalização do tempo e do espaço, ou seja, fazer uma mesma coisa em tempos e lugares diferentes (simultaneidade)”, lê-se no artigo A Era Pós-Industrial, a Sociedade do Conhecimento e a Educação para o pensar, de Elian Ababi Lucci.
No entanto...
Embora a Era do Conhecimento esteja muito clara e seja irreversível (graças a Deus!), muitas empresas ainda não se atentaram para a urgência de adaptar-se. Como afirmou Covey no Fórum já citado, “Vivemos na Era do Conhecimento com parâmetros da Era Industrial”. E para reforçar a tese do especialista, ele usou um exemplo perfeito: o sistema de contabilidade que ainda vigora nas empresas é o mesmo utilizado no período industrial, no qual a contratação de pessoas é lançada como despesa e a aquisição de máquinas, como investimento.
O verdadeiro líder
Um passo importante para que as empresas assumam seu papel na Era do Conhecimento está na escolha de suas lideranças. Há muitas corporações no Brasil que simplesmente ignoram essa premissa, deixando de considerar certos detalhes na hora de contratar bons líderes para conduzir suas equipes. Trata-se de um investimento indireto que gera resultados diretos e duradouros, obedecendo à teoria do Capital Humano.
Mas há um ponto que me incomoda ainda mais nessa deficiência: muitas de nossas empresas não sabem avaliar, com base em parâmetros atuais e apropriados à realidade que se impõe, as características de um verdadeiro líder.
Aquela velha hierarquia onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo” encontra cada vez menos espaço na sociedade atual. Estamos focados na inteligência, e isso também requer um esforço de RESPEITO à inteligência alheia, ao ser humano que está a seu serviço. Ignorar isso é assinar o próprio atestado de burrice.
Algumas empresas estão tão atrasadas nesse quesito, que não imaginam o tempo e o dinheiro que perdem ao direcionar para os cargos de chefia pessoas mal preparadas ou mascaras sob um perfil de liderança que já não engana mais ninguém.
Pessoas medrosas, inseguras, autoritárias, desatualizadas, preguiçosas e conservadoras não podem assumir cargos de chefia simplesmente porque essas características já demonstram deficiência para liderar. Mas há as que enganam. Essas são menos líderes ainda. Aproveitam-se do “poder” que o cargo lhes confere para abusar do velho ditado: “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.
Há muitos incompetentes coordenando equipes e enganando a alta cúpula sob uma máscara de eficiência. Mal sabe a alta direção o atraso que isso vêm lhes causando! Mas isso também indica uma cerca incapacidade deles em gerenciar seus próprios gerentes.
Ações de humildade e perdão foram destacadas por Stephen Covey, que afirmou: “Liderança é uma escolha, não uma posição; os líderes são autodidatas, como Gandhi”.
“Vemos o mundo como somos, não como ele realmente é; por isso, precisamos ser humildes, precisamos saber ouvir profundamente para entender o outro. A força de caráter é a essência do líder. Viva, ame, aprenda e deixe um legado”, sentenciou Covey.
A verdade é que precisamos de líderes que saibam administrar certas características deles mesmos, como teimosia, orgulho, egocentrismo, presunção, para poder coordenar sua equipe de forma eficiente.
Um líder de verdade conhece cada membro de sua equipe, se mistura com eles, presta atenção em detalhes, em minúcias, pois isso faz qualquer pessoa se sentir valorizada e respeitada. O líder ideal não perde tempo com medo de que lhe roubem o cargo, a posição, porque ele é humano, seguro e transparente o suficiente para crescer sempre mais em sua carreira. Na verdade, ele incentiva, sabe como motivar cada pessoa e como transformar qualquer conjunto de pessoas numa equipe afinada e comprometida, satisfeita. Acompanhamento e feedback são também ações valiosas em um líder. Ele tem que se colocar no lugar do outro, entender de gente, para liderar bem.
Caráter, integridade e maturidade são três características fundamentais citadas por Stephen Covey. E ele não é o único a seguir essa linha. Max Gehringer, consultor organizacional que já esteve à frente de grandes empresas (Elma Chips, Pullmann e Pepsi, entre outras) e eleito pela Gazeta Mercantil, em 1999, um dos executivos mais cobiçados do País, é categórico: “Os melhores líderes são os que lideram pelo exemplo pessoal. Era assim há cinco mil anos, e continua sendo”.
Em uma entrevista ao site RH.Com, Gehringer destaca a importância de se oferecer espaço e liberdade para as pessoas trabalharem, e ressalta, é claro, a humildade que deve vir principalmente da alta direção.
“Alguns chefes, é verdade, extrapolam um pouco, ao ponto de achar que ser um “superior” significa ser melhor que os subordinados, em todos os aspectos. Essa é uma raça em extinção, mas que continua fazendo marola em muitas empresas”. E continua: “Não adianta uma empresa chamar o empregado de ‘colaborador’, se ele não tem chance de colaborar. Não adianta implantar programas internos de motivação, se existe uma barreira intransponível entre a baixa e a alta hierarquia. Nas melhores empresas para se trabalhar, os canais de comunicação são abertos (...). nas empresas não tão boas, há uma grande diferença entre o discurso e a prática”.
Bem, pra começar, temos grandes empresas aí que (pasmem!) nem canais de comunicação possuem ainda, quem dirá disposição e sabedoria para conhecer seus funcionários e dar-lhes o acesso necessário para uma relação limpa, honesta, transparente e produtiva.
Para Gehringer, “O líder é o fio condutor das mudanças. É através das várias camadas de liderança, que uma mensagem, que vem lá do alto do organograma, é repassada, explicada e assimilada. A falta de uma liderança eficaz faz com que a mensagem acabe se diluindo pelo caminho e chegue meio desacreditada aos funcionários que, por fim, serão os responsáveis diretos pela execução de uma tarefa”.
Esse exemplo de líder que Gehringer sempre comprovou ser, se define como um líder que contrata os melhores subordinados e lhes dá paz para trabalhar, liberdade para pensar e agir, errar e aprender. E como isso é importante! O gestor precisa confiar nas pessoas que contrata, dar-lhes espaço para atuar e sentir-se à vontade, afinal, o trabalho é sim uma extensão importante de sua vida.
Além do mais, essa confiança funciona como um combustível motivador, dá segurança e sossego para o profissional, e isso o leva a dar, de livre e espontânea vontade, o melhor de si, e a buscar mais e mais a superação. Ganha a pessoa, ganha a empresa, ganha o País. É só uma questão de estratégia e inteligência – esforços que valem muito a pena.
Empresas com esse perfil prestam um valioso serviço social, porque isso gera resultados positivos que não se limitam aos lucros corporativos, mas beneficia também ao ser humano de uma forma completa, que expande isso à sua família, sua casa e ao mundo que ajuda a construir.



